terça-feira, novembro 18, 2008

Um segredo sonhado

Ela sonhou que vestia um lindo vestido rosa, de saia grande daquelas que dançam com a música como se tivesse vida própria, rendado, cheio de brilhantes em locais estratégicos fazendo que uma simples garota pareça uma das mais belas princesas do mundo moderno. Sonhou também que estava num grande salão, onde todos que estavam só tinham olhos para ela. Ela ficou vermelha. Nunca tinha visto tanta gente olhando apenas para ela. Primeiro pensou que deveria haver algo errado em seu vestido. Tinha que ter algo errado. Mas não, estava tudo certo. Logo depois pensou que sua tiara poderia estar mal colocada, mas estava perfeita, parecia que foi feita apenas para ela. Estava tudo certo. Todos estavam a admirando.

Logo em seguida, começou a tocar uma valsa da qual ela não saberia dizer, mas com toda certeza parecia aquela dos filmes que ela vira quando criança. Era bela esta canção. Só agora que ela pensou que algo deveria estar errado, pois não havia nenhuma comemoração próxima, ela já havia completado 15 anos e estava longe de qualquer aniversário de próximo. Mas o importante é aproveitar este sonho, ela disse.

Do meio da multidão apareceu um garoto, mas não era qualquer, era aquele que perambulava em todos seus sonhos e devaneios, aquele que tivera apenas como inalcançável e agora estava lá, presente. Era um sonho se tornando realidade. Ou um sonho mesmo, já que até durante seus sonhos ela tem sonhos por dentro.

Aquele perfeito filme durou por muito tempo, ela não saberia precisar quanto, porque em sonhos não temos noção de nada. Além do fato de ser um daqueles sonhos que não queremos acordar nunca, o que importava era que ela estava lá e estava de olhos aberto. Ela dançou, dançou e dançou, sempre abraçada de seu querido garoto transfigurado em príncipe. E o grande momento esperado por muito tempo – tanto em vida real como até em sonhos, porque toda vez que ela sonhava em beijá-lo ela acordava – chegou, ele a pegou pelo rosto e a beijou, ela fechou seus olhos para sentir este grande momento.

Fechou seus olhos.

E quando abriu, ele ainda estava lá.

quinta-feira, novembro 13, 2008

.:Amor-próprio:.



"Ao contrário do amor, o amor-próprio não acaba nunca" - Carlos Drummond de Andrade, em "O Avesso das coisas".

Este aforismo deveria estar na consciência de cada pessoa, penetrada em cada buraco invisível de nossos poros de forma que sirva de nossa grande luz nos momentos de maior escuridão (há aquelas pessoas que só vivem na escuridão). Normalmente buscamos sempre o reconhecimento do outro, o amor do outro, o abraço do outro (embora não deixe de ser verdade que "Eu sou o outro"), mas o que quero abordar é a necessidade, talvez a urgência, de se buscar um equilíbrio em nós mesmos, equilíbrio este que nos faça pensar melhor, receber melhor elogios e críticas.

Temos que buscar antes de pensar em ser bem amado, em nos amarmos bem, para aí sim sermos amados. Se fossemos traçar um gráfico a linha do amor de outro cresceria conforme a linha do amor próprio cresce, é como se o amor próprio fosse um copo, um recipiente e o amor do outro fosse o líquido.

Cresce a necesidade junto a tudo, de buscarmos um espelho para nós mesmos, um espelho que nos faça ver nossas qualidades, defeitos e tudo aquilo que nos torna aquilo que somos, entretanto se lembre que somos passíveis de mudança, o mundo inteiro é um Devir. Então vamos nos mover, nos conhecer, nos amar, nos conhecer. Sua vida não precisa de pontos finais, o tempo fará isso por você.

Fica no final uma frase do Einstein: "A vida é como andar de bicicleta. Para manter seu equilíbrio você deve continuar em movimento".

p.s: todas as fotos são de minha autoria e se encontram no flickr: http://www.flickr.com/photos/little_figo/

sábado, novembro 08, 2008

.:Um Fim (ou A balada do Homem Morto):.

Seria muito frio da minha parte tentar começar de forma enfeitada uma história triste, de alguém que morreu de infarto fulminante em sua própria casa. Sozinho. Abandonado.

É muito engraçado como a gente só se choca por egoísmo. Não choramos porque alguém morreu, mas porque alguém da NOSSA VIDA morreu. Repare que não é a vida que se míngua, mas nossos contatos. Se a gente não conhecesse ninguém não sofreríamos?

Não posso pedir para vocês se emocionarem pela morte desse senhor porque vocês nem ao menos sabem se ele existiu ou não. Eu também não me emocionei.

Era um senhor estava desfrutando de sua solitária aposentadoria (se ele fosse ela, uma criança de apenas 13 anos vocês se emocionariam? Existe morte mais triste que outras? Morte não é apenas morte?), e um belo (ou mal?) dia ele começou a sentir que o fim se aproxima, não sabia descrever, mas sentia que algo estava para acontecer. Não sabia dizer se era algo bom ou ruim, pois acreditava que nada seria pior do que vivia agora. Imagine morar numa cidade grande com milhões de habitantes e você ser invisível? Um fantasma renegado pelos céus e que está fadado a viver em solo? Era assim que ele se sentia.

Passados exatos 27 dias, assistindo seu programa de tevê favorito – desenhos animados, sim ele mantinha algo de jovial em toda aquela história – quando sentiu que aquela dor seria a última. E foi. Com um fim de supetão.

Um fantasma foi aceito no reino dos céus.

E nesse dia não caíram gotas de chuva dos olhos das pessoas.